29 de dez de 2009 32 Declarações de outras almas

Do nome da história


Em janeiro, "História da minha alma" completa um ano.
Mais que um ano de histórias particulares, foi um tempo de partilhas.
Por isso, a comemoração que desejo não poderia ser diferente:
quero ouvir-te!

Se a história da tua alma tivesse um nome, um título, qual seria?






Republico aqui um poemeto que fiz recentemente,
cuja essência traduz o que esse um ano de blog significou para mim:

se a minha alma
proseou com a tua,
então ela
já fez história.
24 de dez de 2009 31 Declarações de outras almas

Do peregrino sem estrela


corpo franzino
pernas arqueadas
apóia-se num pedaço de pau
tão arqueado quanto às pernas.
beira a estrada
e vai.
fazemos o mesmo caminho,
mas o nosso caminho não é o mesmo.
vou co-memorar.
e ele, para onde irá?
não parei o carro
(a gente se acostuma ao absurdo).
na estrada
continuei, fui.
fizemos o mesmo caminho,
mas o nosso caminho não é o mesmo.
talvez ele não saiba que é natal.
talvez eu não saiba que é natal.
talvez ninguém saiba que é natal.
18 de dez de 2009 27 Declarações de outras almas

Da poesia nossa


no instante mesmo
em que for colocado
o ponto que
(grafica-mente)
finaliza este poema,
ele já não mais
me pertencerá
.

se não for minha-e-tua,
a poesia não é poesia:
é quimera muda
...





A verdade de um poema não está
apenas no que a alma-poeta quer dizer:
importa - tanto quanto -
o entendimento particular da alma-leitora.
12 de dez de 2009 33 Declarações de outras almas

Da chuva vital


Chuva
beija chão
e faz brotar cheiro.

Vento
sopra vão
e faz soar voz.

Chão
acomoda semente
e faz multiplicar vida.
t. prates

> Tentando tirar alguma poesia de tanta chuva... rs.
10 de dez de 2009 32 Declarações de outras almas

Da prosa com o sol, o canto, o céu: sugestão aceita!


e se amor só tiver cor com dor?
(tipo (b)ônus?)

se eu puder
(metida que sou!)
escolher uma cor
para o meu,
quero o branco -
que (metido!)
contém todas as outras.


Poemeto-diálogo com o poema da queridíssima Cynthia,
do blog Sol sobre, publicado em 30/11/09.

*
é que ela me ensina sempre
que a vida já vale
pelos pequenos-sorrisos-de-canto-de-boca.


Poemeto-retribuição à bonita da Renata Carneiro, do blog
Canto de detalhes,
que sempre me oferece "pequenos" mimos.

*
será mesmo triste a nossa sina
de sermos cantadoras do tema-teimoso
tendo ao nosso lado
Drummond, Clarice,
Florbela
e outras tão ilustres Pessoa(s)?


Poemeto-resposta para a flor estonteante da Marjorie Bier, do blog
Céu da Boca.

*
se a minha alma
proseou com a tua,
então ela
já fez história.


Poemeto-homenagem à clariceana rafa-lóri, Rafaela Figueiredo,
do blog ler ou não ler: eis a sugestão, pelo carinho da postagem de 26/11/09.
5 de dez de 2009 33 Declarações de outras almas

Do(a) desfeito(a)


...
é que estou tentando calar
esse poema de amor
(de-amor?)
(de-des-amor?)
cujo começo
"Ousaste despertar em mim
uma esperança vã"
já me desagrada;
desagrada-me -
agora -
falar da esperança vã;
desagrada-me esse tema -
teimoso -
pois que agora -
e daí pra frente -
eu quero falar
(eu quero viver!)
da (a) realidade - sã.
t. prates

Imagem própria.
30 de nov de 2009 40 Declarações de outras almas

Das 10+1 sílabas


Conto as sílabas poéticas nos dedos
lendo antes um soneto de Camões;
uma sílaba, ora, a mais não é pretexto
pr'eu mudar as minhas grandes pretensões.

De Bocage e de Bilac os sonetos
devorei, atenta às rimas e orações;
uma sílaba, ora, a mais não é defeito
pr'um aluno que tem boas intenções.

A bê á bê a bê á bê já cumpri;
falta agora só cê dê cê cê dê cê
(isso é a coisa mais louca que escrevi!).

É por isso que, aos mestres que já li,
eu renovo meu respeito: namastê!
E a você, leitor: relaxe, pode rir!
t. prates



> Ao mestre Bardo, com carinho.
>> Porque o primeiro soneto a gente nunca esquece (rs).
29 de nov de 2009 16 Declarações de outras almas

Do interlúdio fotográfico


Caros leitores,

estou sem muito tempo para atualizar o blog,
haja vista a correria de final de semestre
(termino agora o 2º ano de Filosofia!,
além dos compromissos profissionais...).
Mas gostaria de partilhar com vocês essa foto do meu afilhado "delicioso",
Eduardo Luis, que está com 6 meses,
tirada por mim na última sexta-feira.

"Deve ter alamedas verdes
a cidade dos meus amores
e, quem dera, os moradores
e o prefeito e os varredores
e os pintores e os vendedores
fossem somente crianças."

(A cidade ideal,
Os Saltimbancos,
Chico Buarque)

Outras fotos, aqui.
21 de nov de 2009 34 Declarações de outras almas

Da humanidade minúscula


o que é a Vida
senão o que tu experimentas na sucessão das tuas vivências?

o que dizer sobre o Amor
senão das quedas e glórias que enredam as histórias dos teus amores?

o que buscar como Belo
senão ao que faz os teus olhos marejarem em êxtase?

qual é a Verdade
senão as tentativas de uma busca autêntica de significar tua existência?

onde está a Felicidade
senão nos momentos em que teu coração encontra paz?


(Intrigam-me as palavras com letra maiúscula que aludem a existências maiúsculas:
Amor - Belo - Verdade - Felicidade - Vida - e tantas Outras.
Maiúsculas tentam-nos ao inferno da comparação - e da constante insatisfação.
Maiúsculas fazem-nos, miticamente, idealizar.
Em busca das maiúsculas,
corremos o risco de negligenciar o que é ordinariamente nosso, mediocremente nosso, fatualmente nosso. Mas nosso.)

Imagem: Steve Adams

>>> Dedico essa reflexão a Adriana Tannus.
14 de nov de 2009 36 Declarações de outras almas

Da evanescência



Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
(Drummond)
10 de nov de 2009 32 Declarações de outras almas

Do que preenche



conforta
o abraço
o que a palavra,
com força,
apenas tateia.
t. prates

Imagem daqui.
4 de nov de 2009 28 Declarações de outras almas

Da prece herética

Arrisquei uma oração pro Deus
que está no céu
(que vai do céu da minha boca
à boca do seu vão),
e pedi a Ele que:

- Não a escutes, Senhor de cima;
ela quer, pelo excelso da Tua voz,
ficar surda ao som ordinário
que chega - nítido! - aos seus ouvidos.

- Não lhe fales, Senhor de baixo;
ele quer, pela surdez complacente da Tua piedade,
uma combinação encantada de palavras
que chegue - pronta! - aos seus lábios.

- Não lhes conheça, Senhor sem lados;
eles querem, pela onipotência do teu Ser,
não-serem por si próprios,
esperando de Ti o que já deste.

Querer ouvir a frase pronta do que se é:
isso é questionar
a destreza de Tuas mãos.

(Amém).
t. prates


"Transcender é uma transgressão.
Mas ficar dentro do que é,
isso exige que eu não tenha medo."
(Clarice, em A paixão segundo G.H.)

Imagem daqui.
28 de out de 2009 39 Declarações de outras almas

Das reincidências

Ela temia a repetição: a repetição de esperanças malogradas, a repetição de histórias interrompidas, a repetição da dor familiar, a repetição dos adjetivos pessimistas nos mesmos substantivos.
"Amar é romper", deduzia.
Porque ela é daquelas que repete para si: que há saída. Por isso o medo: medo de que mesmo essa repetição faça parte do círculo vicioso de reincidências absurdas. Medo de se repetir e não provar a mudança.
Ela ainda tem muito o que aprender.
t. prates

"Continuação" (pois que aprender é pra sempre) da postagem Das passagens.

"A própria luta para atingir os píncaros
basta para encher um coração (...).
É preciso imaginar Sísifo feliz."
(A. Camus)
22 de out de 2009 37 Declarações de outras almas

Da noite da alma


Escuta, minh'alma:
sob o véu enegrecido desse silêncio,
sob o breu resplandecente desse céu
a dor - alarmada pela luz
grita! com brados clamantes:
- sou tua!

Agarra-a, não a negues:
não é mentira o que ela diz.
Assume-a como condição
da tua condição.

Apesar dela
e por ela
é que tu és.

E se ela te cobre
e te traz noite,
é para o teu sol de dentro
nascer majestoso na aurora.
t. prates


"E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar..."
Imagem daqui.
16 de out de 2009 43 Declarações de outras almas

Do silêncio fecundo



Há silêncios que são fecundos,
porque dizem do indizível.
Destarte,
posso falhar como poeta
(porque desse se espera sempre a expressão),
mas ganhar como pessoa que é
(e que busca o melhor do ser).
Pois que existir, sendo,
é das tarefas mais laboriosas.
Assim, calo-me:
não por falta de inspiração,
mas para fazer gritar o silêncio.
t. prates


Imagem daqui.
12 de out de 2009 46 Declarações de outras almas

Da órbita

t. prates

* Clique para ampliar (e ver o "movimento").
** Poemeto modificado e republicado.
7 de out de 2009 40 Declarações de outras almas

Da escala(da)

DO caos e ruídos dentro em mim
REssoa a esperança de harmonia:
MIsterioso alento que acena e
FAz-me experienciar a beleza que,
SOLta em várias partes, tal peças
LÁbeis à procura de unidade,
SIlencia a desordem e traz verdade.
t. prates


A experiência da música é uma das mais importantes e viscerais na minha vida.
Convido-os a fazê-la comigo, ouvindo Cantique de Jean Racine, de Gabriel Fauré, que cumpre muito bem para mim esse papel.
(Uma dica, se me permitem: ouvir com o som bem alto, de olhos abertos apenas para dentro). Link para a música, aqui.
4 de out de 2009 31 Declarações de outras almas

Da feliz.idade




Há 27 anos
uma essência
existe em mim.

ou (?)

Há 27 anos
uma essência
crio em mim.











De todas as guerras,
a mais urgente é vencer a si mesmo,
construir a própria existência,
fazer a passagem
da dor incurável (angústia) à sábia aceitação,
da revolta violenta ao gentil convívio (inclusive e principalmente consigo mesmo),
do desespero infeliz a uma esperança plausível,
de uma transcendência irresponsável à fé (mínima) na própria capacidade de criação e redenção,
da existência alienada à liberdade responsável,
das pequenas respostas às grandes perguntas.
t. prates



"Lóri: uma das coisas que aprendi
é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de
que nos empurra para a frente.
Foi o apesar de que me deu uma angústia
que, insatisfeita,
foi a criadora de minha própria vida".

"Mas existe um grande,
o maior obstáculo para eu ir adiante:
eu mesma.
Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho.
É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
(...) Sou um monte intransponível no meu próprio caminho.
Mas às vezes por uma palavra tua
ou por uma palavra lida,
de repente tudo se esclarece."

(Clarice Lispector,
'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres')

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.
(Drummond)
29 de set de 2009 37 Declarações de outras almas

Da recusa

Convidei-te para entrar:
preferiste ficar à porta.

Convidei-te para dançar (ao som do silêncio):
preferiste a segurança inerte de inócuas palavras.

Convidei-te para sermos:
preferiste ser, sozinho.

Convidei-te para alcançar estrelas:
preferiste não tirar os pés do chão.
t. prates

Imagem daqui.
26 de set de 2009 21 Declarações de outras almas

Da poetisa e da "menininha"

Tive o enorme prazer e privilégio de conhecer pessoalmente a poetisa Flora Figueiredo essa semana, em um Serão Literário em Ribeirão Preto.
Ao final de sua declamação, pude entregar a ela um poema que fiz em homenagem às minhas poetisas prediletas, Da poética feminina, que ela recebeu com uma gentileza singular, agradecendo-me com um "muito obrigada, menininha!" (às vésperas dos 27, esse "menininha" soa como um acalento... rs).

Transcrevo aqui o poema Vida, um dos meus preferidos:

Na dúvida, faça.
O risco faz parte.
A graça está
em tentar,
em vez de sentar e assistir;
o mundo está
em esticar-se todo para atingir;
o mundo está
no desafio da interrogação.
E porque não?
Entre na festa,
arranque a capa,
morda a maçã.
Desate o cinto
para voar livre pelo amanhã,
ainda que ele seja um labirinto.
deixe o ID rolar
Nesta arte viva de arriscar,
cônscio e devoto.
Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto.
Flora Figueiredo

Para ver um vídeo que fiz há um tempo com esse texto, cliquem aqui.
(atentem para o sotaque!, mas relevem... rs)

Para conhecer mais o trabalho de Flora, acessem www.florafigueiredo.com
23 de set de 2009 36 Declarações de outras almas

Do desabafo


Que espécie de poetisa
(indigna)
sou eu
que, às vezes,
não se sente capaz
de escrever
um único verso
digno?

Se escrever é maldição que salva
(como pre-escreveu Clarice),
não fazê-lo é benção nonsense.

Se a palavra é meu domínio sobre o mundo
(como pre-sentiu Clarice),
não tê-la é sentir-se dominada pelo nada.
t. prates
18 de set de 2009 33 Declarações de outras almas

Da justificativa

: que ela espera
o dia
- grande dia!
em que o fato
notável (quase mágico)
justificará sua vida.
(aprenderá - em tempo
que o Sentido
- maior
não vem de fora?
, nem veste trajes de pompa?)

[intriga-me
o quanto de vida
se perde na espera de:
]
t. prates

"Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua,
terão quase todas as janelas fechadas,
e as raras pessoas visíveis lhe responderão
com um gesto desconsolado:
o que era bom ficou para trás, muito para trás,
e ele passou adiante, sem dar por isso.
Ah, é demasiado tarde para voltar,
atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue,
impelida pela mesma ilusão,
mas ainda invisível, na branca estrada deserta."
("O deserto dos tártaros", Dino Buzzati)

Imagem daqui.
12 de set de 2009 40 Declarações de outras almas

Das duas faces


> Intertextualidade com a máxima de Heráclito, filósofo pré-socrático.
>> Imagem minha (outras, aqui)
9 de set de 2009 41 Declarações de outras almas

Da devoção

Acusaram-me
de não saber amar com gratuidade.
Ora,
não quero um amor religioso:
não tenho vocação para santa.
Quero algo em troca.
Quero muito em troca.
T. Prates

Imagem daqui.
8 de set de 2009 17 Declarações de outras almas

Da saída à francesa



O poema rebelle
trançou-me os dedos
e saiu à francesa.
T. Prates





"O transe poético é o experimento 
de uma realidade anterior a você. (...) 
Tentar dizê-la é o labor do poeta."
[Adélia Prado]
1 de set de 2009 40 Declarações de outras almas

Da boca X pés

Ainda atarantada
com a boca,
minha preocupação
não chega
nem
aos pés.

T. Prates
















Poemeto-diálogo-retribuição ao poema Ama,
da Renata de Aragão Lopes,
do blog Doce de lira.
 
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