04/11/2009

Da prece herética

Arrisquei uma oração pro Deus
que está no céu
(que vai do céu da minha boca
à boca do seu vão),
e pedi a Ele que:

- Não a escutes, Senhor de cima;
ela quer, pelo excelso da Tua voz,
ficar surda ao som ordinário
que chega - nítido! - aos seus ouvidos.

- Não lhe fales, Senhor de baixo;
ele quer, pela surdez complacente da Tua piedade,
uma combinação encantada de palavras
que chegue - pronta! - aos seus lábios.

- Não lhes conheça, Senhor sem lados;
eles querem, pela onipotência do teu Ser,
não-serem por si próprios,
esperando de Ti o que já deste.

Querer ouvir a frase pronta do que se é:
isso é questionar
a destreza de Tuas mãos.

(Amém).
t. prates


"Transcender é uma transgressão.
Mas ficar dentro do que é,
isso exige que eu não tenha medo."
(Clarice, em A paixão segundo G.H.)

Imagem daqui.

28/10/2009

Das reincidências

Ela temia a repetição: a repetição de esperanças malogradas, a repetição de histórias interrompidas, a repetição da dor familiar, a repetição dos adjetivos pessimistas nos mesmos substantivos.
"Amar é romper", deduzia.
Porque ela é daquelas que repete para si: que há saída. Por isso o medo: medo de que mesmo essa repetição faça parte do círculo vicioso de reincidências absurdas. Medo de se repetir e não provar a mudança.
Ela ainda tem muito o que aprender.
t. prates

"Continuação" (pois que aprender é pra sempre) da postagem Das passagens.

"A própria luta para atingir os píncaros
basta para encher um coração (...).
É preciso imaginar Sísifo feliz."
(A. Camus)

22/10/2009

Da noite da alma

Escuta, minh'alma:
sob o véu enegrecido desse silêncio,
sob o breu resplandecente desse céu
a dor - alarmada pela luz
grita! com brados clamantes:
- sou tua!

Agarra-a, não a negues:
não é mentira o que ela diz.
Assume-a como condição
da tua condição.

Apesar dela
e por ela
é que tu és.

E se ela te cobre
e te traz noite,
é para o teu sol de dentro
nascer majestoso na aurora.
t. prates


"E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar..."
Imagem daqui.

16/10/2009

Do silêncio fecundo



Há silêncios que são fecundos,
porque dizem do indizível.
Destarte,
posso falhar como poeta
(porque desse se espera sempre a expressão),
mas ganhar como pessoa que é
(e que busca o melhor do ser).
Pois que existir, sendo,
é das tarefas mais laboriosas.
Assim, calo-me:
não por falta de inspiração,
mas para fazer gritar o silêncio.
t. prates


Imagem daqui.

12/10/2009

Da órbita

t. prates

* Clique para ampliar (e ver o "movimento").
** Poemeto modificado e republicado.

07/10/2009

Da escala(da)

DO caos e ruídos dentro em mim
REssoa a esperança de harmonia:
MIsterioso alento que acena e
FAz-me experienciar a beleza que,
SOLta em várias partes, tal peças
LÁbeis à procura de unidade,
SIlencia a desordem e traz verdade.
t. prates


A experiência da música é uma das mais importantes e viscerais na minha vida.
Convido-os a fazê-la comigo, ouvindo Cantique de Jean Racine, de Gabriel Fauré, que cumpre muito bem para mim esse papel.
(Uma dica, se me permitem: ouvir com o som bem alto, de olhos abertos apenas para dentro). Link para a música, aqui.