2 de mai. de 2011 0 Declarações de outras almas

Da palavra da salvação

você se dá conta de como a palavra é frágil? de como ela não é capaz de sustentar, por si mesma, fatos, planos, sonhos ou estados de ser? de como ela se dis-sol-ve à força do acaso, do devir, da vida que vem como maremoto?

eu me dou conta de como o domínio da palavra se estende, precariamente, apenas no aqui-e-agora? que o advento de poetas e cantadores nunca cessará, porque apesar de se cantar o que é eterno, a palavra nunca é definitiva? (isso me é impressionante: nunca (e aqui ouso dizer com todas as letras): NUNCA haverá um poema definitivo; tampouco uma música definitiva, uma obra de expressão humana definitiva).

você se dá conta de como a palavra é feroz? de como ela dá vida (ao que já contém em si semente de vida) e de como pode matar? de como é intensa sua ação de cura e também de dilaceração?

eu me dou conta de como palavras que pertencem à esfera do amanhã são puro ato de fé? que verbos conjugados no futuro é apenas uma aposta? (exceto o verbo morrer, de cumprimento garantido). e o quanto essa aposta no futuro tantas vezes nos faz conjugar mal os verbos que nos são possíveis-no-hoje (e possíveis só porque é hoje)?

você se dá conta de como a palavra pode ser dúbia? o quanto a boca também pode falar do que não-está cheio o coração? o quanto as palavras podem ser hipócritas? (o que não é possível ao sentir - pois sentir é inteiro: ou é ou não-é).

à palavra, como símbolo que é, só cabe aludir. e aludir é um esforço autêntico de representar, mas que acaba, tantas vezes, por limitar o real, dominá-lo e subjugá-lo. o real é sempre mais. o real é indomável.

e eu me dei conta de que existe algo que sobrepõe em força todas as limitações da palavra.
algo que é, de fato, o combustível humano em absolutamente todas as suas manifestações: o desejo. nada é feito sem ele. nenhum poema, nenhuma canção, nenhum tratado, estudo, experimento, negócio, relação - de que tipo for. nenhuma vida é feita e mantida e sobrevivida sem desejo. (e, como o sentir, pois é do domínio do sentir, o desejo é inteiro: ou é ou não-é).

e não: isso não é um "manifesto contra a palavra". é apenas reflexão. (e - talvez! - uma apologia ao desejo... Rs.)
ainda que na sua fragilidade, fugacidade, ferocidade, dubiedade - a palavra, muitas vezes, é o que me salva - legítima
"palavra da salvação".
28 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

De alguns verbos possíveis


escrevo como quem reza
rezo como quem blasfema
blasfemo como quem deseja
desejo como quem vive
vivo como quem sonha
sonho como quem espera
espero como quem tem fome
tenho fome como quem grita
grito como quem agoniza
agonizo como quem ama
amo como quem salta
salto como quem se arrisca
me arrisco como quem morre,
e nunca sabe o que será.


t. prates



"E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido.
Pois só posso rezar ao que não conheço.
E só posso amar à evidência desconhecida das coisas,
e só posso me agregar ao que desconheço.
Só esta é que é uma entrega real."
|Clarice Lispector, A paixão segundo GH|
24 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do retrato da minha alma



sim-eu-sei: que o gosto das coisas
se consome com o
tempo
e que a verdade é um
retrato pregado na parede.
também sei que o que eu digo
hoje
pode estar perdido
amanhã
em ondas fugidias, pelo espaço
infinito.
sei que a escada que me faz subir
é a mesma que me faz descer.
sei que não se entra duas vezes
no mesmo rio.
eu sei tantas coisas, sabe?
(e talvez desconheça as fundamentais.)
((e quem as conhece?))

sei que nunca e pra sempre
são apenas medidas de força,
não de tempo.
sei também que,
porque me é dado desejar,
gratuitamente,
te desejarei até quando
me for (im)possível.
e te repetirei essa minha verdade
até que, cansada de não ser/ter vida,
ela se torne um capricho da memória,

um capítulo na história da minha alma.

t. prates

Imagem daqui.
15 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do nunca e do pra sempre

Nunca é muito perto para sonhos abortados.
É lugar-comum para quem quer descansar do cansaço de procurar por portas abertas (pois que o desejo de abrir portas não é suficiente para que elas se abram).
Nunca é a lei de um tempo que corre para lugar algum: se é nunca, não vai existir no tempo. E o que não existe no tempo não é. E o que vou fazer com coisas que não são? Coisas que apenas se prometem mas se perdem no excesso da falta?
Pra sempre é muito longe para a fluidez de ser.
Pra sempre é um ato de fé. Uma mentira necessária para quem quer se fazer constante e maior que a força caótica da Vida (do caos nascem estrelas e também buracos negros).
Só o tempo existe pra sempre, e eu sou apenas intervalo (e o que é intervalo não pode conter/almejar eternidade). Sou começo, meio e fim. Começos, meios e fins, dentro de um único dia. Dentro de um único inspirar/expirar, sente? Ciclos incansáveis que se encerram pelo misterioso e factual Fim maiúsculo.
E eu não me canso de perguntar pelo sentido disso Tudo. E eu me canso de não saber responder (e recorro ao nunca das portas proibidas/fechadas).
Talvez o sentido do mundo seja gago: sem-sentido. E não me venha falar que deus-sabe-o-que-faz, porque.

t. prates


PS I: Pessimista? Talvez - se houver mesmo necessidade de tal conceituação (e há?). Apenas falo de como a vida se deu a mim no dia de hoje. Amanhã? Amanhã pode ser que nada do que eu disse e penso faça mais sentido. Mas amanhã ainda não é. E o que não é não pode ser expresso.

PS II: A respeito do amanhã: o quanto o amanhã me rouba do hoje? Da urgência do hoje, que é o que eu de fato tenho?

PS III: pequena prece à Vida (porque suportar dor sem fé em alguma coisa, nem que seja em si mesmo, é um sacrifício sobrehumano - e eu sou apenas demasiado humana): que a vida seja generosa comigo, amém.
10 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

D'isto

Da distância relativa que pode ser absoluta.
Do tempo que mata lentamente de tanta vida.
Da saudade que é dor presente de um passado bom.
Da dúvida que contém em si um pedaço da certeza.
Das palavras que desmoronam por mero golpe da ação.
Da solidão pura que é mais humanamente intrínseca que qualquer outra essência.
Da força que se aprende pela repetição da fraqueza.
Do fado humano de ser livre (e só).
Das renúncias infinitas que uma única escolha exige.
Do amor que não é a única condição para se poder amar.
Do Deus que dá e que tira (sit nomen domini benedictum*?)
Da vida que é etcétera.

: é sobre isto este não-poema.



t. prates

* Jó 1,21, parte final.
 
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