6 de abr de 2010

Da canção do fim para o começo possível

Imagem de Chiara Fersini
Ouve, meu amor

: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.

: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).

Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (a alétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.

O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.

(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor for uma escolha, eu escolheria te amar.)

t. prates



PS: Esse texto foi originalmente escrito para esse blog, mas acabou indo parar na Confraria dos Trouxas essa semana. Resolvi republicá-lo aqui, por fazer parte de um capítulo essencial na história da minha alma.

25 comentários:

A Moni. disse...

A mais perfeita relação entre a lucidez e a subjetividade, Talita...

É como colocar, enfim os pés no chão, mas sem se podar de olhar para o céu, sem escquecer do desejo de voar...

Lindo e intenso... Se isso é ser "trouxa", reitero, sou membro (orgulhosa) do grupo.

Beijos, querida.
Sempre bom ler as histórias da tua alma!

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

A madrugada hoje promete... mal acabo de ler um dos melhores contos contemporâneos que já li na vida, e me deparo com este seu texto mágico, encantador, e quase 'não-crível' de tão belo e perfeito... Belíssimo! Que se há mais de dizer, senão o hiato de lábios entreabertos ante a beleza ímpar...

O meu trecho mais marcante?!

Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre.

:D

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

P.S.: relendo e rememorando o perfil, o graduada em Filosofia me explica então a referência à Descartes [na casa destruída e reconstruída - alethea - desconstrutivismo - etc.]

;)

Mais belo inda se torna...

Beijo, menina!

Paulo Tamburro disse...

TALITA,

soou o alarme:

Jamais permitas que suas fantasias se tormem , realidades absolutas.

A realidade não tem graça nenhuma!

O grande e genial dramaturgo brasileiro,Nelson Rodrigues, constumava dizer a esse respeito que:

-" Se os meus fatos não corroboram a realidade, então que se dane essa tal de realidade".

O que está fora de você Talita é tragado pelas ventanias, poluido pelo Co2, enlamedados pelos temporais, enfim...

"os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra."

Cuidado, pode ser o começo do fim.

Evite entregar sua beleza, encantamentos, sonhos e fantasias de mulher como entregou sua nudez.

A nudez seve para consumo do prazer, mas seus sentimentos internos , feche-os a quatro chaves, no cofre inviolável da sua felicidade verdadeira.

É certo que todos nós pensamos que devemos realizar materialmente, nossas fantasias: Não, nem todas.

Guarde sempre algumas inalcançáveis pela realidade devoradora, como devoradora irá um dia transformar seu corpo, da qual sua nudez é o único grande trunfo de uma realidade.

Transformar pela implacável ação do tempo.

O amor é muito mais que uma simples realidade!

Trabalhe muito seus sonhos e fantasias , seja egoista e não os doe, porque senão além de perderes o viço e a beleza do seu corpo, perderás também, os únicos combustíveis que mantêm funcionando, os seus maiores e melhores sentimentos.

Um abração carioca.

Tiago Moralles disse...

Boa escolha, eu diria.
Microbeijo.

Adolfo Payés disse...

Es muy hermoso.. Un gusto volver a leerte..

Después de mi ausencia... me quedo como siempre por tu espacio disfrutando de tus letras...

Un abrazo
Saludos fraternos..

Rafaela Figueiredo disse...

'no mim existem coisas q o eu desconhece'...
_fatofatofato!

florinha,
tão bonito. dá até pra se pensar nessa forma de amor com uma delicadeza indescritível.
só pra avisar, pois.

beijo com sdd

Renata de Aragão Lopes disse...

Ah, que delícia de texto!
"Padeço do desconhecido do amor."

Só me assustei
com o futuro do pretérito
da última frase.

O amor
foi ou não
inventado? : (

Beijo, querida!

fred girauta disse...

Talita, lembrei de um poema do Leminski:

"podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano"

bj.

[ rod ] ® disse...

O amor é perversamente assertivo. Uma vem em nós não há fuga! bjs moça e brilhante... você faz de mim um ser crente e ainda pensante.

Nydia Bonetti disse...

Fosse possivel fazer escolhas... Pensamos que escolhemos nossos caminhos, mas tenho cada vez mais certeza: a vida é que nos leva, Talita. E acho isso bom. A vida sem o inesperado não teria lá muita graça. :) beijo!

J. disse...

Talita, eu adorei seu texto. E me identifiquei tanto. Porque essas mudanças assustam mesmo, mas, no fim, terminam por ser boas e sempre abrem novas possibilidades.

Um beijo.

A.S. disse...

Talita...

Quem não ama... não vive!!!


BeijOOO
AL

Sarah Slowaska disse...

Acompanho os teus textos em silêncio. São todos tão lindos! Hoje não resisti e resolvi dar-lhe os parabéns, mas PARABÉNS mesmo, com letras grandes!

Um beijo

Marcelo disse...

nunca ninguém me responde o que é o amor...

:(

marjoriebier disse...

O amor não gosta de explicações... ele padece nas verdades. Essas que nos trazem um pouquinho de lucidez no meio de tanto desatino.

Bem vinda.

renata carneiro disse...

é preciso re_inventar.
re_começar.
re_criar.
re_fazer.
re_pensar.
re_tentar.
é preciso das as mãos ao novo. e girar.


lindo, tatá!
beijo

C@urosa disse...

Olá minha cara Talita Prates, passei para uma visita e adorei seu blog. Que blog lindo! Inteligente e sensível, meus parabéns. Espero poder voltar mais vezes.

Paz e harmonia em seus dias,

forte abraço,

C@urosa

Maria João disse...

E é um texto magnífico, de uma profunda, intensa e desnudada viagem ao maior e mais intímo labirinto de ti, que é no fundo a mais pura verdade que te habita!

Gostei muito, mesmo!!

paulo disse...

Tudo é possível, fins, começos, amores, realidades e ficção.
Belo texto, Talita

Lai Paiva disse...

E que o amor seja sempre possível e tangível!!! Lindo, querida. Bjs

sopro, vento, ventania disse...

Talitóvski,
Que escândalo esse seu texto, hein?! Lindo mesmo.
Peço desculpas pelo sumiço. É que tá phoda de difícil dar conta de tudo.
Obrigada pela visita, pelo carinho.
Saudades também.
Seu espaço continua lindo.
"Escrever é uma maldição que salva", Clarice (e você) tem razão, mas, eu vou indo, sem tentar me salvar e me afogando na vida, sem parar. Mas há de parar. Ah, há!
um beijo, querida,
Cynthia

Talita Prates disse...

A. Moni, vc sempre me acrescenta muito com a tua partilha. De verdade. Por isso, te agradeço! Um bjo.

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Francisco, fico feliz que a tua impressão sobre o texto tenha sido tão boa! Um bjo, e obrigada.

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Paulo, agradeço as considerações. Obrigada. Bjo.

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Ti, um bjo. :)

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Adolfo, gracias! Abrazos!

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'Fa-Lóri, minha amora querida, feliz por te ter aqui e aqui-> (L). BJOOOO!

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Re, minha amiga... nem eu sei responder... rs. Bjo!

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Fred, obrigada pelo Leminski! Gosto MUITO! BJo.

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Rod, fico feliz por poder dizer o mesmo de você! Um bjo, moço querido. :)

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Nydia, cara poetisa, obrigada pela partilha. Um bjão.

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J., tomara mesmo... Um bjo!

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Albino, concordo. Um bjo!

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Talita Prates disse...

Sarah, OBRIGADA! Aguardo mais expressões... Me acrescentam. Um bjo grato. :)

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Marcelo... rsrsrsrs, não espere a definição! Viva-o! Bjo.

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Mar, obrigada... Vamos juntas. Bjo.

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re, linda é você! bjins! ;)

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C@urosa, fico muito feliz com as tuas boas impressões acerca do blog! Espero tuas visitas. Um bjo grande.

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Maria João, gostei MUITO da imagem do labirinto: é assim mesmo que me vejo. Obrigada! Um bjo.

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Paulo, obrigada. Bjo.

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Lai, que seja! Bjo, linda.

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Cy, queridíssima! Obrigada por tanta delicadeza... Um bjo!

Sylvia Araujo disse...

Essa tua psico-filosofia não me deixa desgrudar daqui. E agora, José?

 
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