16 de dez de 2010

Do pequeno ensaio sobre a vida neutra



Tenho pressa do tempo que cura. Do tempo que faz a dor virar resquício e alicerce de vida.

Do tempo que cura a vida em mim e lhe devolve seu atributo fundamental - que é o de ser neutra.
A vida em si é de um cinza neutro, maravilhosamente indiferente e impregnado. A vida se dá cinza.
As cores com as quais tento pintá-la são sempre artificiais - o que digo sem intenção pejorativa. Artificiais porque não lhe são intrínsecas, mas sempre dadas de fora, num esforço e exercício contínuos.
E se, com esforço, tento pintar a vida com tons alegres e agradáveis, também o acaso (?) é um grande pintor (sempre mais eficiente que eu?), com preferência (apesar das surpresas) por tons incômodos e austeros.
Mas chego ao que queria dizer: sendo eu ou sendo o acaso, a pintura é externa à vida, que continua redundantemente neutra.
(Não sei se você alcança o que eu quero dizer, nem mesmo se eu alcanço com a expressão a compreensão disso que consigo sentir. Mesmo porque não é sempre que eu consigo sentir, tão empenhada eu fico na coloração da vida - a minha pintura contra a do acaso).
E eu tenho pressa do tempo que escorre as cores que eu não quero, ainda que saiba que as cores que eu quero também vão escorrer.
Sinto que a felicidade - ou o mais perto que disso consigo chegar - está em descobrir esse tom cinza da vida. E felicidade me soa muito colorido: melhor falar em paz.


t. prates



Com efeito, uma única e mesma coisa
pode ser boa e má ao mesmo tempo
e ainda indiferente.
[Spinoza]

Não há fatos,
apenas interpretações.
[Nietzsche]

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