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7 de fev. de 2012 11 Declarações de outras almas

D'eu, rio

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|              eu  -  rio              |
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30 de jan. de 2012 14 Declarações de outras almas

Do poema lúdico e sem rima


tem uma janela no meu pôr-do-sol,
um peito na minha saudade,
um corpo no meu amor,
uma boca no meu céu,
um talvez no meu nunca,
uma voz no meu silêncio,
um sol na minha clave.


tem uma falta na minha esperança,
uma paixão no meu ódio,
um pensar no meu excesso,
um sentir no meu drama,
um absurdo no meu sentido,
um sentido no meu sintoma,
um desejo no meu recalque.


tem um cotovelo na minha dor,
um canto de boca no meu sorriso,
uma fé na minha descrença,
um caminho na minha pedra,
um até breve no meu adeus,
uma garganta no meu nó,
um verso no meu clichê.


tem de tudo no meu poema
- que não tem uma rima sequer.


t. prates
9 de out. de 2011 16 Declarações de outras almas

Do haicai ôntico


o Homem
- esse ser que pensa,
esse ser que passa.


t. prates


Imagem: Le Penseur, de Rodin. Imagem original daqui, editada por mim.
6 de out. de 2011 9 Declarações de outras almas

Da ex-is-tên-cia-mo-sai-co

: porque eu preciso olhar no espelho e acreditar no que vejo. e ver o que ainda não sou para continuar aspirando a ser. se a imagem no espelho vira retrato, nada mais há o que esperar: o inferno é estático, gelidamente dantesco. só no céu, que é a possibilidade da mudança, há movimento. porque eu também sou aquilo que não sou. ser apenas o que sou é muito pouco. é sobrevivência. é aquém do além que ser exige.
vê: eu estou sendo. o gerúndio é a forma verbal da existência por excelência. eu minto a verdade do que sou apenas para experimentar novas formas de estar. é um fingir autêntico. finjo o que não sou para experimentar se, por ventura, posso ser. e a essa soma de estares, feita de tantas subtrações multiplicações e divisões, eu chamo existência. artesãos costumam chamar de mosaicos.

t. prates

Imagem daqui, modificada por mim.
27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
30 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Dos elementos de vida

cavou e encontrou
a palavra-tesouro
: terra.




voou e sorveu
a palavra-leve
: ar.

ardeu e forjou
a palavra-forte
: fogo.




mergulhou e bebeu
da palavra-fluida
: água.









amou e descobriu
a palavra-certa
: vida.


t. prates

Arte de Steve Gardner

*Poema originalmente publicado no blog "Maria Clara - SimplesMente Poesia"
26 de jul. de 2010 24 Declarações de outras almas

Das sendas


Imagem: Argijale

t. prates


Quando já estava com os pés em carne viva,
descobri o verdadeiro sentido da vida,
e era para o outro lado.
Felipe A. Carriço, no seu blog Não me faz pensar
6 de abr. de 2010 25 Declarações de outras almas

Da canção do fim para o começo possível

Imagem de Chiara Fersini
Ouve, meu amor

: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.

: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).

Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (a alétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.

O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.

(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor for uma escolha, eu escolheria te amar.)

t. prates



PS: Esse texto foi originalmente escrito para esse blog, mas acabou indo parar na Confraria dos Trouxas essa semana. Resolvi republicá-lo aqui, por fazer parte de um capítulo essencial na história da minha alma.
23 de mar. de 2010 27 Declarações de outras almas

Do pêndulo


que a trajetória seguisse
equi - distante
entre
céu - terra
- só assim manteria a segurança
: o meio.

(Hélios advertiu;
Faeton desobedeceu.
Fuzilou-o Zeus)


que a conduta optasse
oposta - mente
entre
frio - quente
- só assim evitaria a náusea

: o extremo.

(Anjo advertiu;
pecador desobedeceu.
Vomitou-o Deus)


entre
as
lições
ancestrais
radicais
paradoxais
axiais,
olho - encantada - o movimento do pêndulo


t. prates

Imagem daqui.
26 de fev. de 2010 34 Declarações de outras almas

Da relação com a coisa



compôs uma música
que soou doce para os românticos,
tola para os duros,
indiferente para os surdos.

talvez o deus
também assim seja,
(amém)
: providente para os crentes,
inexistente para os céticos,
intocável para os neutros.


t. prates
14 de fev. de 2010 39 Declarações de outras almas

do fruto da vida


adeus dará
ao costume quase ritual
do esforço mínimo
de apenas
orar-a-ação,
prescindindo da vida
face à esperança
da promessa
do porvir?

a deus dará
o paterno fortúnio
de já gozar a vida
- e vida em abundância
no reino
que já é desse mundo,
pois que, onipotente,
também é dele
o reino das terras?

ao deus-dará,
caminha sobre prados
ora verdejantes, ora secos;
serve-se das águas
ora tranquilas, ora revoltas.
tem o maior presente
dentro de si:
o sopro de vida
- e o fado da liberdade.

oxalá ouvísseis a voz do deus:
e porque estreita é a porta,
e apertado o caminho que leva à vida,
e poucos há que a encontrem*.

t. prates

*Mt 7,14


>>> <<<


"Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. (...) Eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro. (...)

Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. (...) Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. (...)

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é. (...)

Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou."

(Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.)

Imagem daqui.


13 de jan. de 2010 39 Declarações de outras almas

Dos quereres


Ela entendia não poder todo querer.
Já quis poder acender a luz para ver do que era feito o escuro. Quis poder tocar nuvem para sentir água em forma de algodão. Quis que a madureza do presente já estivesse presente em longínquo passado.
"Querer não é poder", deduzia.
Porque ela é daquelas que começa a entender que há coisas que existem apenas pela sub-existência de outras; que o desejo, para continuar sendo, nunca pode ser satisfeito por completo.
Por isso a aprendizagem: vê que o prazer da vida só é possível pela falta que constrói o anseio.
Ela se alegra em poder aprender.

"Continuação" das postagens Das reincidências e Das passagens.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
(Manoel de Barros)
21 de nov. de 2009 34 Declarações de outras almas

Da humanidade minúscula


o que é a Vida
senão o que tu experimentas na sucessão das tuas vivências?

o que dizer sobre o Amor
senão das quedas e glórias que enredam as histórias dos teus amores?

o que buscar como Belo
senão ao que faz os teus olhos marejarem em êxtase?

qual é a Verdade
senão as tentativas de uma busca autêntica de significar tua existência?

onde está a Felicidade
senão nos momentos em que teu coração encontra paz?


(Intrigam-me as palavras com letra maiúscula que aludem a existências maiúsculas:
Amor - Belo - Verdade - Felicidade - Vida - e tantas Outras.
Maiúsculas tentam-nos ao inferno da comparação - e da constante insatisfação.
Maiúsculas fazem-nos, miticamente, idealizar.
Em busca das maiúsculas,
corremos o risco de negligenciar o que é ordinariamente nosso, mediocremente nosso, fatualmente nosso. Mas nosso.)

Imagem: Steve Adams

>>> Dedico essa reflexão a Adriana Tannus.
22 de out. de 2009 35 Declarações de outras almas

Da noite da alma


Escuta, minh'alma:
sob o véu enegrecido desse silêncio,
sob o breu resplandecente desse céu
a dor - alarmada pela luz
grita! com brados clamantes:
- sou tua!

Agarra-a, não a negues:
não é mentira o que ela diz.
Assume-a como condição
da tua condição.

Apesar dela
e por ela
é que tu és.

E se ela te cobre
e te traz noite,
é para o teu sol de dentro
nascer majestoso na aurora.
t. prates


"E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar..."
Imagem daqui.
16 de out. de 2009 43 Declarações de outras almas

Do silêncio fecundo



Há silêncios que são fecundos,
porque dizem do indizível.
Destarte,
posso falhar como poeta
(porque desse se espera sempre a expressão),
mas ganhar como pessoa que é
(e que busca o melhor do ser).
Pois que existir, sendo,
é das tarefas mais laboriosas.
Assim, calo-me:
não por falta de inspiração,
mas para fazer gritar o silêncio.
t. prates


Imagem daqui.
4 de out. de 2009 31 Declarações de outras almas

Da feliz.idade




Há 27 anos
uma essência
existe em mim.

ou (?)

Há 27 anos
uma essência
crio em mim.











De todas as guerras,
a mais urgente é vencer a si mesmo,
construir a própria existência,
fazer a passagem
da dor incurável (angústia) à sábia aceitação,
da revolta violenta ao gentil convívio (inclusive e principalmente consigo mesmo),
do desespero infeliz a uma esperança plausível,
de uma transcendência irresponsável à fé (mínima) na própria capacidade de criação e redenção,
da existência alienada à liberdade responsável,
das pequenas respostas às grandes perguntas.
t. prates



"Lóri: uma das coisas que aprendi
é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de
que nos empurra para a frente.
Foi o apesar de que me deu uma angústia
que, insatisfeita,
foi a criadora de minha própria vida".

"Mas existe um grande,
o maior obstáculo para eu ir adiante:
eu mesma.
Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho.
É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
(...) Sou um monte intransponível no meu próprio caminho.
Mas às vezes por uma palavra tua
ou por uma palavra lida,
de repente tudo se esclarece."

(Clarice Lispector,
'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres')

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.
(Drummond)
18 de set. de 2009 33 Declarações de outras almas

Da justificativa

: que ela espera
o dia
- grande dia!
em que o fato
notável (quase mágico)
justificará sua vida.
(aprenderá - em tempo
que o Sentido
- maior
não vem de fora?
, nem veste trajes de pompa?)

[intriga-me
o quanto de vida
se perde na espera de:
]
t. prates

"Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua,
terão quase todas as janelas fechadas,
e as raras pessoas visíveis lhe responderão
com um gesto desconsolado:
o que era bom ficou para trás, muito para trás,
e ele passou adiante, sem dar por isso.
Ah, é demasiado tarde para voltar,
atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue,
impelida pela mesma ilusão,
mas ainda invisível, na branca estrada deserta."
("O deserto dos tártaros", Dino Buzzati)

Imagem daqui.
 
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