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9 de out. de 2011 16 Declarações de outras almas

Do haicai ôntico


o Homem
- esse ser que pensa,
esse ser que passa.


t. prates


Imagem: Le Penseur, de Rodin. Imagem original daqui, editada por mim.
6 de out. de 2011 9 Declarações de outras almas

Da ex-is-tên-cia-mo-sai-co

: porque eu preciso olhar no espelho e acreditar no que vejo. e ver o que ainda não sou para continuar aspirando a ser. se a imagem no espelho vira retrato, nada mais há o que esperar: o inferno é estático, gelidamente dantesco. só no céu, que é a possibilidade da mudança, há movimento. porque eu também sou aquilo que não sou. ser apenas o que sou é muito pouco. é sobrevivência. é aquém do além que ser exige.
vê: eu estou sendo. o gerúndio é a forma verbal da existência por excelência. eu minto a verdade do que sou apenas para experimentar novas formas de estar. é um fingir autêntico. finjo o que não sou para experimentar se, por ventura, posso ser. e a essa soma de estares, feita de tantas subtrações multiplicações e divisões, eu chamo existência. artesãos costumam chamar de mosaicos.

t. prates

Imagem daqui, modificada por mim.
27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
22 de set. de 2010 0 Declarações de outras almas

Do prelúdio para acordar sapos (e sapas)




bem te quis
quando era uma vez.

(bem me quis
de rainha do rei.)

mal te quis
quando tua veste de gala ruiu.

(mal me quis
quando meu castelo de areia caiu.)

mal te quero
por te fingires príncipe, se sapo.

(mal me quero
quando o espelho mente, e me calo.)

bem te quero
em um reino de mim tão distante.

(bem me quero
quando guardo esse livro na estante.)

t. prates

Imagem: Masha Maklaut
30 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Dos elementos de vida

cavou e encontrou
a palavra-tesouro
: terra.




voou e sorveu
a palavra-leve
: ar.

ardeu e forjou
a palavra-forte
: fogo.




mergulhou e bebeu
da palavra-fluida
: água.









amou e descobriu
a palavra-certa
: vida.


t. prates

Arte de Steve Gardner

*Poema originalmente publicado no blog "Maria Clara - SimplesMente Poesia"
26 de jul. de 2010 24 Declarações de outras almas

Das sendas


Imagem: Argijale

t. prates


Quando já estava com os pés em carne viva,
descobri o verdadeiro sentido da vida,
e era para o outro lado.
Felipe A. Carriço, no seu blog Não me faz pensar
22 de jun. de 2010 29 Declarações de outras almas

Da felicidade possível


Ela desejava a vida para além do quase.
Ruminava as lembranças agridoces das vivências que construíram seu caminho até o ponto em que havia chegado. Sabia serem essas vivências que haviam delineado a essência do que ela era até ali. "O que eu sou para além da memória de mim?", se perguntava.
O que encontrava na gaveta da memória lhe dava a impressão de que antes (ou depois?) do êxtase (esse instante fugaz e ilusório em que se julga ter encontrado o pote de ouro) alguma coisa se rompia e lhe roubava a promessa da permanência de suas conquistas.
"Felicidade são pontos tremulantes de luz na noite escura", deduzia.
Porque ela tem aprendido que o mais importante passo da vida é o recomeço.
O esforço do recomeço para além da dor da queda. A possibilidade do recomeço para além do medo da dor.
E tem aprendido que ela também é o que pode vir a ser.

t. prates


Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente.
Não ousar é perder-se.

***

A vida só se compreende mediante um retorno ao passado,
mas só se vive para diante.
(S. Kierkegaard)

Imagem: Bella
2 de mai. de 2010 19 Declarações de outras almas

Das aprendizagens práticas


Ouve,


é que eu estou aprendendo a ser prática. Desse pragmatismo quase masculino (não estou fazendo um pré-conceito; isso é mesmo um elogio) que relega a um plano subalterno esses sentimentalismos onerosos e pouco saudáveis.
Estou aprendendo a parir força de um estado de semi-dor que, até então, eu tinha como estéril e que descobri ser a terra mais fecunda da minha alma.
Mais astuta que fênix, ouso dizer que tenho aprendido a renascer sem esperar as cinzas.

É que a verdade pode ser resplandecente, ouve! E pode alcançar o mais recôndito de mim e dos fatos: basta eu permitir. Basta eu não me fazer de cega. Ou surda.
Ouço a verdade me sondar. Tu também podes ouvir?

t. prates

>>> Tenho estado muito "de prosa" nos últimos tempos. Como é perceptível, os últimos textos têm um forte teor "catártico", e a prosa me tem sido maior aliada nessas circunstâncias. Espero que a Poesia venha me visitar em breve...

Imagem daqui.
26 de abr. de 2010 22 Declarações de outras almas

Da reta intenção


Ela queria a inteireza dos que se buscam com intenção reta, ainda que tropecem. Queria um olhar puro e perspicaz que reconhecesse a (im)pureza do olhar alheio.

"Decepcionar-se é surpreender-se às avessas", deduzia.
Porque ela é daquelas que, imprudentemente, procura acreditar com toda a sua vontade na bondade do Outro.
Pensava que só o encontro de duas verdades que aspiram a serem inteiras e autênticas (nunca perfeitas e prontas) possibilita o Encontro real de duas almas.
Acreditava na construção dessa realidade em comum, desde que os alicerces não fossem feitos de areia. E que a intenção fosse seja sempre reta. Sempre.
Paredes tortas arruinam a casa.

t. prates
15 de abr. de 2010 34 Declarações de outras almas

Doa'mar


aproxi-

mar-
se
sem
medo
da
entrega
e ser-
vir
:
vir
a
ser
qual
o rio
que
serve
ao mar

amar: doar para inteirar-se (...)

t. prates

6 de abr. de 2010 25 Declarações de outras almas

Da canção do fim para o começo possível

Imagem de Chiara Fersini
Ouve, meu amor

: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.

: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).

Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (a alétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.

O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.

(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor for uma escolha, eu escolheria te amar.)

t. prates



PS: Esse texto foi originalmente escrito para esse blog, mas acabou indo parar na Confraria dos Trouxas essa semana. Resolvi republicá-lo aqui, por fazer parte de um capítulo essencial na história da minha alma.
23 de mar. de 2010 27 Declarações de outras almas

Do pêndulo


que a trajetória seguisse
equi - distante
entre
céu - terra
- só assim manteria a segurança
: o meio.

(Hélios advertiu;
Faeton desobedeceu.
Fuzilou-o Zeus)


que a conduta optasse
oposta - mente
entre
frio - quente
- só assim evitaria a náusea

: o extremo.

(Anjo advertiu;
pecador desobedeceu.
Vomitou-o Deus)


entre
as
lições
ancestrais
radicais
paradoxais
axiais,
olho - encantada - o movimento do pêndulo


t. prates

Imagem daqui.
24 de fev. de 2010 34 Declarações de outras almas

Dos achados

Ela queria contemplar toda a largueza alaranjada do horizonte distante. (Achava um dos momentos mais sensuais da natureza esse encontro mentido entre céu e terra ao entardecer.)
Não queria ser dessas pessoas que decidem o que querem encontrar antes mesmo de sair à procura.
"Felicidade é desfocar", deduzia.
E isso nada tinha a ver com a questão toda e depreciada e combatida de falta de metas e objetivos e sonhos.
É que assim os achados se tornam sempre surpreendentes, à revelia da dor ou prazer que possam causar.

t. prates




"Dá-me luz, ó Deus do tempo!
Nesse momento menor
pr'eu saber seu redor.
A gente quer ver
horizonte distante."
(Marcelo Camelo,
Los Hermanos)
Imagem daqui.
14 de fev. de 2010 39 Declarações de outras almas

do fruto da vida


adeus dará
ao costume quase ritual
do esforço mínimo
de apenas
orar-a-ação,
prescindindo da vida
face à esperança
da promessa
do porvir?

a deus dará
o paterno fortúnio
de já gozar a vida
- e vida em abundância
no reino
que já é desse mundo,
pois que, onipotente,
também é dele
o reino das terras?

ao deus-dará,
caminha sobre prados
ora verdejantes, ora secos;
serve-se das águas
ora tranquilas, ora revoltas.
tem o maior presente
dentro de si:
o sopro de vida
- e o fado da liberdade.

oxalá ouvísseis a voz do deus:
e porque estreita é a porta,
e apertado o caminho que leva à vida,
e poucos há que a encontrem*.

t. prates

*Mt 7,14


>>> <<<


"Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. (...) Eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro. (...)

Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. (...) Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. (...)

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é. (...)

Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou."

(Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.)

Imagem daqui.


1 de fev. de 2010 36 Declarações de outras almas

Da novidade

Tenho aprendido
a amar de um jeito novo,
a sofrer de um jeito novo,
a esperar de um jeito novo.
A ser humano com novidade.



“Aprende-se quando já não se tem como guia forte
a natureza de si próprio.
Lóri, Lóri, ouça: pode-se aprender tudo, inclusive a amar!
E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!”
(Clarice, em "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres")
 
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