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16 de nov. de 2010 0 Declarações de outras almas

Da palavra-flor



a palavra está em semente

a chuva, escassa
a terra, seca
a voz, rouca
o grito, mudo
as mãos, pendidas
os pés, cansados
os cabelos, presos
as roupas, gastas
os prazos, esgotados
o tempo, corrido
o carro, quebrado
as unhas, roídas
a lua, minguante
o canteiro, esquecido.

vingará a semente?
(preciso cuidar dela!, como preciso...)

- eu não gosto de flores de plástico.

t. prates

Imagem daqui.
23 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Do poder poético




decreto
(pois que n'um poema eu posso tudo)
a existência do verbo
(e da experiência,
que é o mais importante)
p o e m a r.
(eu poema,
tu poemas,
ele poema,
... e etc.,
para todos os sujeitos e tempos.)

afinal,
tudo posso
no poema
que me esclarece.

t. prates

Imagem:
Tilemahos Efthimiadis
17 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Da palavra matriz





t. prates


Imagem: Erica
7 de jun. de 2010 36 Declarações de outras almas

Dos multi.versos


o (meu) desejo
não se contenta
com um uni.verso

: está sempre à procura
dos multi.versos
que possam lhe dar
voz
vazão
vida
...


t. prates

Para o desejo do meu coração,
o mar é uma gota.
[Adélia]


Imagem daqui.





23 de abr. de 2010 34 Declarações de outras almas

Da intradução


o sentimento nebuloso
não deu permissão
para ser traduzido.

t. prates
18 de dez. de 2009 27 Declarações de outras almas

Da poesia nossa


no instante mesmo
em que for colocado
o ponto que
(grafica-mente)
finaliza este poema,
ele já não mais
me pertencerá
.

se não for minha-e-tua,
a poesia não é poesia:
é quimera muda
...





A verdade de um poema não está
apenas no que a alma-poeta quer dizer:
importa - tanto quanto -
o entendimento particular da alma-leitora.
27 de jul. de 2009 30 Declarações de outras almas

Do parto poético (ou da metalinguagem)



Meu processo de criação quase nada tem de homogêneo - nada mais natural, haja vista a heterogeneidade da minha alma!
Digamos que ele tem características esquizos e instáveis.
Na ausência de normas rígidas, relato algumas pequenas constantes:

#Minha criatividade é sempre maior em momentos de angústia. Sei que isso vale para muita gente, e vejo como uma grande dádiva o fato de termos a escrita para lidarmos com esse estado demasiado humano (talvez o "mais" humano...).
Também escrevo em momentos bons, é claro. Mas a finalidade (ou causalidade?) acaba sendo outra: no primeiro caso, catarse e elaboração; no segundo, partilha e coroação.

#Dos instrumentos:
Papel e caneta: sempre!
Somente depois disso meus poemas ganham outras formas de existência.
(Engraçado que, vezes raras, quando escrevo no computador ou celular, enquanto não passo para o papel, o poema me parece impessoal e alheio. Vai entender... (tenho explicações, claro, mas isso fugiria ao tema principal desse texto.))

#Das situações:
A maioria deles nasce naquele solitário e, tantas vezes!, atormentado momento em que, cabeça no travesseiro, os pensamentos revisitam preocupações, anseios adiados, contas por vencer, compromissos para não serem esquecidos, dores acumuladas, alegrias memoráveis e sabe-se-lá quantos devaneios aí nos visitam...
Minha poética costuma funcionar nesses instantes que antecedem o descanso do sono e o alívio (ou não! rs) dos sonhos, talvez como conclusão de um dia produtivo, talvez como oração para anseios ainda não realizados.

(Interessante o que me ocorre agora: como penso nos poemas como oração... "Oro" com eles, neles, e para eles. Mas eles encerram em si mesmos a própria mística, sem pretensões transcedentais... (ah, minha fase inquieta, herege e materialista... tema para outro texto. Rs)

(Estou me estendendo e não gosto de textos longos para o blog... Hunf!)

Mas quantas vezes também eles não nascem no meio da rua, a caminho do trabalho, no trabalho, no carro à espera de um sinal verde, no meio de uma aula de filosofia grega, depois de uma conversa que tenha dilacerado (oh, exagero!) meu coração?!
Rebeldes, eles não escolhem lugar para serem paridos.

Era isso.
Não quero mais escrever... rs.
Agradeço a paciência de quem percorreu os olhos até aqui.


PS:
1) Partilho questões e impressões muito pessoais. Não quero que soem como arrogantes expressões como "meu processo de criação", "meus poemas", "minha poética". Apenas falo de mim, sem maiores pretensões, tendo a partilha como principal intenção. :)
2) Escrevi esse texto seguindo sugestão da Kenia, do Poesia Torta.
14 de mai. de 2009 9 Declarações de outras almas

Dons sons e palavras



>> Como é agradável que existam palavras e sons;
não são, palavras e sons, arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas?
(...)
Não foram as coisas presenteadas com nomes e sons,

para que o homem se recrie com elas?
Falar é uma bela doidice:
com ela, o homem dança sobre todas as coisas.
Quão grata é toda a fala e toda a mentira dos sons!
Com sons dança o nosso amor em coloridos arco-íris. <<
Assim falou Zaratustra, 3ª parte. Nietzsche.
27 de abr. de 2009 10 Declarações de outras almas

Da rima


Eu não gosto de rima.
A rima destoa da vida.
Quem já viu vida com rima?

Prefiro os sons estranhos,
chocantes,
as palavras inusitadas,
rebeldes.

Rima é inocente.
E o mundo é dos fortes.
(Que me perdoem os grandes autores
e os da rima admiradores -
mas fazer a palavra rimar
é como querer que, na vida,
tudo seja
como a gente pensa que deveria ser.)
Talita Prates
22 de abr. de 2009 9 Declarações de outras almas

Ambivalentes


Ambivalentes como nós, palavras preparam armadilhas ou abrem portas de sedução.
Embalam ou derrubam,
enredam em doces laços,
ou nos matam dolorosamente – como punhais.


Lya Luft, "Laços e Punhais" em Pensar é transgredir


Foto: http://www.flickr.com/photos/hammondsbabies/2664205063/
23 de mar. de 2009 8 Declarações de outras almas

Paulo Leminski - Inutensílio

10 de fev. de 2009 2 Declarações de outras almas

Emergência


Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.
Mário Quintana
 
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