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27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
30 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Dos elementos de vida

cavou e encontrou
a palavra-tesouro
: terra.




voou e sorveu
a palavra-leve
: ar.

ardeu e forjou
a palavra-forte
: fogo.




mergulhou e bebeu
da palavra-fluida
: água.









amou e descobriu
a palavra-certa
: vida.


t. prates

Arte de Steve Gardner

*Poema originalmente publicado no blog "Maria Clara - SimplesMente Poesia"
1 de ago. de 2010 0 Declarações de outras almas

Do soneto do amor intrépido




Admito a cadência vacilante
dos meus passos em tua direção.
O receio da dor, paralisante
quebra a marcha e confunde o coração.

E não é, senão, o amor aquele instante
que se salta, sem ver do abismo o chão?
Tal audácia não se exige do amante
que pretenda, para o amor, coroação?

Não há regra, certeza ou vantagem.
Grande é o risco, e maior a coragem
que se exige para este passo além.

Se às dúvidas e medos sobra margem
que o ousar seja a intrépida vantagem
de quem quer somar-se à vida de alguém.


t. prates

> Imagem: Martin Stranka
> Soneto originalmente publicado na Confraria dos Trouxas.
6 de abr. de 2010 25 Declarações de outras almas

Da canção do fim para o começo possível

Imagem de Chiara Fersini
Ouve, meu amor

: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.

: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).

Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (a alétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.

O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.

(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor for uma escolha, eu escolheria te amar.)

t. prates



PS: Esse texto foi originalmente escrito para esse blog, mas acabou indo parar na Confraria dos Trouxas essa semana. Resolvi republicá-lo aqui, por fazer parte de um capítulo essencial na história da minha alma.
14 de fev. de 2010 39 Declarações de outras almas

do fruto da vida


adeus dará
ao costume quase ritual
do esforço mínimo
de apenas
orar-a-ação,
prescindindo da vida
face à esperança
da promessa
do porvir?

a deus dará
o paterno fortúnio
de já gozar a vida
- e vida em abundância
no reino
que já é desse mundo,
pois que, onipotente,
também é dele
o reino das terras?

ao deus-dará,
caminha sobre prados
ora verdejantes, ora secos;
serve-se das águas
ora tranquilas, ora revoltas.
tem o maior presente
dentro de si:
o sopro de vida
- e o fado da liberdade.

oxalá ouvísseis a voz do deus:
e porque estreita é a porta,
e apertado o caminho que leva à vida,
e poucos há que a encontrem*.

t. prates

*Mt 7,14


>>> <<<


"Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. (...) Eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro. (...)

Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. (...) Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. (...)

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é. (...)

Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou."

(Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.)

Imagem daqui.


12 de dez. de 2009 33 Declarações de outras almas

Da chuva vital


Chuva
beija chão
e faz brotar cheiro.

Vento
sopra vão
e faz soar voz.

Chão
acomoda semente
e faz multiplicar vida.
t. prates

> Tentando tirar alguma poesia de tanta chuva... rs.
26 de set. de 2009 20 Declarações de outras almas

Da poetisa e da "menininha"

Tive o enorme prazer e privilégio de conhecer pessoalmente a poetisa Flora Figueiredo essa semana, em um Serão Literário em Ribeirão Preto.
Ao final de sua declamação, pude entregar a ela um poema que fiz em homenagem às minhas poetisas prediletas, Da poética feminina, que ela recebeu com uma gentileza singular, agradecendo-me com um "muito obrigada, menininha!" (às vésperas dos 27, esse "menininha" soa como um acalento... rs).

Transcrevo aqui o poema Vida, um dos meus preferidos:

Na dúvida, faça.
O risco faz parte.
A graça está
em tentar,
em vez de sentar e assistir;
o mundo está
em esticar-se todo para atingir;
o mundo está
no desafio da interrogação.
E porque não?
Entre na festa,
arranque a capa,
morda a maçã.
Desate o cinto
para voar livre pelo amanhã,
ainda que ele seja um labirinto.
deixe o ID rolar
Nesta arte viva de arriscar,
cônscio e devoto.
Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto.
Flora Figueiredo

Para ver um vídeo que fiz há um tempo com esse texto, cliquem aqui.
(atentem para o sotaque!, mas relevem... rs)

Para conhecer mais o trabalho de Flora, acessem www.florafigueiredo.com
18 de set. de 2009 33 Declarações de outras almas

Da justificativa

: que ela espera
o dia
- grande dia!
em que o fato
notável (quase mágico)
justificará sua vida.
(aprenderá - em tempo
que o Sentido
- maior
não vem de fora?
, nem veste trajes de pompa?)

[intriga-me
o quanto de vida
se perde na espera de:
]
t. prates

"Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua,
terão quase todas as janelas fechadas,
e as raras pessoas visíveis lhe responderão
com um gesto desconsolado:
o que era bom ficou para trás, muito para trás,
e ele passou adiante, sem dar por isso.
Ah, é demasiado tarde para voltar,
atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue,
impelida pela mesma ilusão,
mas ainda invisível, na branca estrada deserta."
("O deserto dos tártaros", Dino Buzzati)

Imagem daqui.
11 de ago. de 2009 18 Declarações de outras almas

Do armazém


*Clique na imagem para ampliar.
**Texto republicado.
31 de jul. de 2009 21 Declarações de outras almas

Do dedim de prosa


Eu: Ele deu uma sumida, cumadi...
Cumadi mineira: Eeeee Valdivino*, bagre ensaboado!
Eu: Pois é... agora: o que fazer com um bagre ensaboado?! Alisar ou deixar escorrer? Ooooo, gente!
Cumadi mineira: Come, uai!
Eu: (...) Bagre tem espinho?
Cumadi mineira: E o que nessa vida que não tem, né, cumadi...
Eu: ...

*Pseudônimo tosco-mas-carinhoso.
** Essa conversa aconteceu há alguns dias, via mensagem de texto (sms).
*** À Flávia Tchê, cumadi de Uberaba-que-mora-em-Ribeirão-Preto... (rs), amiga até nas madrugadas insones.

#bjomemandaSms
#bjomeliga
#bjometwitta
21 de jul. de 2009 16 Declarações de outras almas

Da espera des-esperada

Espero a espera des-esperada.
Espero a madureza de uma espera tranquila.
Espero uma esperança que não seja burra ou alienada.
Espero esperar a passagem das horas
esperando que cada instante seja infinito na sua efêmera duração.
Espero um esperar que não seja em vão.
Espero a coragem da ação diante da esperança.
Espero que a vida não me espere,
Mas aconteça.

*Poema nascido após a leitura do texto Hoping and Waiting, da Luciane, dona do blog Crer para Ver.



>>> O futuro foi agora: tudo é invenção.
[Lenine/Dudu Falcão]
Ouça aqui.
10 de jun. de 2009 13 Declarações de outras almas

Do erro

A solução do problema da vida é a própria vida.
Não se realiza a vida pelo raciocínio e a análise, mas antes de tudo, vivendo.
Pois, enquanto não começamos a viver, falta à nossa prudência material com que trabalhar.
E, enquanto não erramos, não temos ainda os meios para atingir o êxito que esperamos.

Thomas Merton, Na liberdade da solidão


nunca cometo o mesmo erro duas vezes
já cometo duas três quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.
paulo leminski
27 de abr. de 2009 10 Declarações de outras almas

Da rima


Eu não gosto de rima.
A rima destoa da vida.
Quem já viu vida com rima?

Prefiro os sons estranhos,
chocantes,
as palavras inusitadas,
rebeldes.

Rima é inocente.
E o mundo é dos fortes.
(Que me perdoem os grandes autores
e os da rima admiradores -
mas fazer a palavra rimar
é como querer que, na vida,
tudo seja
como a gente pensa que deveria ser.)
Talita Prates
 
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