21 de abr. de 2012 22 Declarações de outras almas

De'ságua


.                 .               ainda que lave         .                       .
          .           .      .   a chuva lá fora    .           .            .
    .          .          .  tem gosto de lágrima.       .       .     .      .

  .     .         .    .         ainda que leve  .          .          .      .
.             .            .   o choro cá dentro    .           .         .       
     .      .       .         tem peso de chuva.       .         .          .


7 de abr. de 2012 15 Declarações de outras almas

Da sublimação

Troche

você disse que
abre aspas
és o meu poema
não escrito, porque vivente,
de rimas imperfeitas, porque humana,
pulsante, porque de ossos, carne e sangue,
fecha aspas,
e eu quero te dizer que
(
ainda que ser o teu poema
fizesse com que eu existisse
com uma precisão invejável
)
eu quero apenas te ser
a tua mulher,
o feminino de um masculino,
um corpo no seu corpo,
a fazer versos inscritos
no corpo (porque em qualquer outro lugar me parece tão insustentável);
eu que, de tanta alma,
me esqueço da matéria viva de que sou feita;
eu que, de tanta alma,
troco a sublime ação por sua mera contemplação, o que tira o atributo de vida vivida, restando apenas a vida pensada,
(e isso que era pra ser um poema metalinguístico toma forma de um desabafo metafísico (definitivamente não sei ser só corpo) e prosaico (tão digno tanto um poema, por que não) e (me deixa abusar da pontuação para cercear o que quer explodir justamente para não ser domado, para não poder-ser-dito, me deixa?) eu me perco. e eu te peço que me ajudes a me achar. 
(se não encontrada, de que outra forma serei tua? de que outra forma poderei sequer ser minha?).
você disse que
eu sou o teu poema,
mas eu sequer sei me ser.



15 de mar. de 2012 18 Declarações de outras almas

Da mudez em nudez


poeme-me em prosa, 
língua, boca,
verso, inverso, 
laço e abraço. 
façamos 
corpo e nudez
onde há apenas
intenção e mudez. 




28 de fev. de 2012 17 Declarações de outras almas

Do vazio cheio


sobretudo quando tudo sobra 
na falta que verte e surpreende
feito balão colorido - que 
se não abrigasse um vazio cheio
não subiria para fazer brilhar 
olhinhos de criança
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
(sobre quê é seu poema?
eu não sei. foi por isso que escrevi.)


t. prates
Imagem daqui.
27 de fev. de 2012 14 Declarações de outras almas

Do exercício de prosa


havia decidido: a partir dali, tomaria as rédeas de tudo. Que não lhe acusassem de comodismo ou inércia – haveria de fazer por merecer a vergonha do fracasso ou as honrarias de sua glória. Até então, assumia: tinha apenas brincado de viver. Mais do que isso, tinha tido preguiça da vida. Abrir a porta do quarto pela manhã era como atravessar a fronteira rumo a um reino inóspito e inimigo. Tudo lhe aborrecia e parecia demasiado desnecessário: votos de bom dia com cheiro de café, ruas paradas pelo trânsito lento, e-mails estúpidos marcados como urgentes, contas abertas sobre a mesa. Preciso pagar as contas ainda hoje, pensava com lucidez. (A lucidez de quem sabe que o domínio da realidade pode ser menos perigoso que a rendição à fantasia, ainda que essa tanto nos descanse). As contas. Os compromissos na agenda. O carro para abastecer. E eu queria desaparecer mas prometi a mim mesma que a partir de hoje tomaria conta de tudo, ainda que tudo me doa, ainda que tudo pareça tão simples aos olhos dos outros, ainda que tudo me amedronte e me pese e pareça sempre tão mais forte que eu. (...) e (...). Respirava. (...) e (...). Fechava os olhos por instantes como que para estancar aquilo sem nome que de dentro dela parecia querer sair. (Não eram lágrimas – havia desaprendido a chorar. Chorar e rezar eram duas coisas que havia desaprendido, e isso lhe fazia falta, por mais que negasse. Aprendera a rezar apenas pra si mesma; piedosa de si, acreditava que só ela podia atender aos próprios anseios. Ninguém mais. Absolutamente ninguém mais. Não, ninguém mais havia que cumprisse esse papel. Era devota e deusa de si, ainda que isso fosse tão precário e frágil). 

[Continua, um dia...]

[Esse texto é um exercício que fiz para a Oficina de Criação Literária da qual estou participando. Decidi publicar também no blog, mesmo sem terminar, porque... porque... porque sim. Aguardo a apreciação de vocês!]
 
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