10 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

D'isto

Da distância relativa que pode ser absoluta.
Do tempo que mata lentamente de tanta vida.
Da saudade que é dor presente de um passado bom.
Da dúvida que contém em si um pedaço da certeza.
Das palavras que desmoronam por mero golpe da ação.
Da solidão pura que é mais humanamente intrínseca que qualquer outra essência.
Da força que se aprende pela repetição da fraqueza.
Do fado humano de ser livre (e só).
Das renúncias infinitas que uma única escolha exige.
Do amor que não é a única condição para se poder amar.
Do Deus que dá e que tira (sit nomen domini benedictum*?)
Da vida que é etcétera.

: é sobre isto este não-poema.



t. prates

* Jó 1,21, parte final.
1 de abr. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do diário de haicais


8h17 - prece à Vida
corações ao alto
pés no chão
palavra(s) da salvação.


11h43 - pré-almoço

fome de pão
sede de amor
de Vida, faminta.



14h15 - penso nele

dos contornos da tua boca
faço o meu céu
(céu da boca)


17h20 - penso em mim


fujo do raso
procuro no fundo
fôlego pra ser.

22h07 - na cama


revirar lembranças
sonhar anseios
amanhã é presente.


t. prates
, 31.03.2011

(inspirado em Geraldo de Barros)

27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
16 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

Da ins.ex.piração



t. prates

Imagem original
daqui editada por mim.
5 de fev. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do dom



Para Léo.


eu, que desaprendi a esperar
que aprendi o des.espero
que me habituei a ficar segura n'um outro modo de ser e de sentir,

tu, que vens e desarrumas tudo
que desarranjas o que eu havia - precariamente - engavetado
que atualizas em mim anseios há muito (e a custo) abandonados,

eu, que te pergunto:
tu, com que direito?

com que direito me ensinas
a ousadia do sonho?
que a estrada não precisa ser só minha?
que a vida pode - sim, meudeus! - ser generosa comigo?

com que direito me dás tua mão?

com que direito me tiras pra dançar?
com que direito me presenteias?
com que direito o teu amor me redime da minha falta de fé?


t. prates


Imagem: Take my hand
 
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