27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
16 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

Da ins.ex.piração



t. prates

Imagem original
daqui editada por mim.
5 de fev. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do dom



Para Léo.


eu, que desaprendi a esperar
que aprendi o des.espero
que me habituei a ficar segura n'um outro modo de ser e de sentir,

tu, que vens e desarrumas tudo
que desarranjas o que eu havia - precariamente - engavetado
que atualizas em mim anseios há muito (e a custo) abandonados,

eu, que te pergunto:
tu, com que direito?

com que direito me ensinas
a ousadia do sonho?
que a estrada não precisa ser só minha?
que a vida pode - sim, meudeus! - ser generosa comigo?

com que direito me dás tua mão?

com que direito me tiras pra dançar?
com que direito me presenteias?
com que direito o teu amor me redime da minha falta de fé?


t. prates


Imagem: Take my hand
10 de jan. de 2011 0 Declarações de outras almas

Do descobrimento



e eles se falavam com pudor nas palavras. um pudor de olhar calma e respeitosamente cada mínimo detalhe comunicado, pois sabiam que as pequenas coisas confessadas são sagradas.
e sentiam que ouvir um ao outro tinha sabor de comunhão - um diálogo mudo em que os sentires eram, por si próprios, o transbordamento e o grito do real/aqui/agora.
como se as palavras pudessem, fatais, macular o que ainda sequer tinha nome.

t. prates

"Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas
e olhos bem abertos."
[Guimarães Rosa]
5 de jan. de 2011 0 Declarações de outras almas

Da des.repetição



que eu procuro a desrepetição e não quero usar o tique-e-taque do relógio na parede como metáfora do tempo inexorável que passa por mim e que me é (quem é alguma coisa fora do tempo?) para te dizer da pressa voraz que eu tenho da vida ainda que tantas vezes eu conclua que ela é demais (ou de menos?) para mim, que ela chega atroz no meu encalço e roça meus cabelos como vento impetuoso – e eu sei que estou usando metáforas batidas e repetidas, mas – doce ilusão -, como escapar da força que o clichê tem para comunicar? e roça meus cabelos como vento impetuoso e como animal feroz que quer acarinhar e não sabe a medida e acaba ferindo, e a vida se me mostra tão cheia de adjetivos que me escapa a pureza das coisas que simplesmente são e que prescindem de qualidade, como a capacidade didática da dor – mas eu não quero falar da capacidade didática da dor porque pode parecer que eu tomo partido do sofrimento e eu sei (sim, eu sei!) como ser alegre é muito melhor, mas a vida exige muito mais que ser alegre – a alegria pura não é vida, não existe um único exemplar da espécie humana que se saiba só alegre, e fico tentada a te falar do caráter paradoxal da vida, mas isso já é interpretação e eu estou ávida, já disse, pela crueza das coisas, porque nomear já limita, quanto mais caracterizar... e não!, não me peça moderação com esses teus olhos estóicos porque eu já fui morna demais até aqui e sinto que se eu não tocar a vida com urgência tudo vai me escapar, tudo terá sido e será em vão, até a repetição, e eu insisto (confusamente) em te dizer (bis)

t. prates


Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
(...)
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos
[Álvaro de Campos,
"Passagem das horas", trecho]


Imagem: Can eat the sun
 
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